Resenha – DANÇANDO SOBRE CACOS DE VIDRO (Ka Hancock)

Resenha Dançando sobre cacos de vidro Ka Hancock

Dançando sobre cacos de vidro

Título: Dançando sobre cacos de vidro

Título Original: Dancing on broken glass

Autor: Ka Hancock

Editora: Arqueiro

Lançamento: 2013

Categoria: Literatura Estrangeira

ISBN: 9788580412079

Páginas: 336

Sinopse: Lucy Houston e Mickey Chandler não deveriam se apaixonar. Os dois sofrem de doenças genéticas: Lucy tem um histórico familiar de câncer de mama muito agressivo e Mickey, um grave transtorno bipolar. No entanto, quando seus caminhos se cruzam, é impossível negar a atração entre eles. Contrariando toda a lógica que indicava que sua história não teria futuro, eles se casam e firmam – por escrito – um compromisso para fazer o relacionamento dar certo. Mickey promete tomar os remédios. Lucy promete não culpá-lo pelas coisas que ele não pode controlar. Mickey será sempre honesto. Lucy será paciente. Como em qualquer relação, eles têm dias bons e dias ruins – alguns terríveis. Depois que Lucy quase perde uma batalha contra o câncer, eles criam mais uma regra: nunca terão filhos, para não passar adiante sua herança genética. Porém, em seu 11° aniversário de casamento, durante uma consulta de rotina, Lucy é surpreendida com uma notícia extraordinária, quase um milagre, que vai mudar tudo o que ela e Mickey haviam planejado. De uma hora para outra todas as regras são jogadas pela janela e eles terão que redescobrir o verdadeiro significado do amor. Dançando sobre cacos de vidro é a história de um amor inspirador que supera todos os obstáculos para se tornar possível.

“Agora sei a diferença entre tristeza e depressão. A depressão clínica não tem uma origem – simplesmente existe. A tristeza intratável não tem nada a ver com sinapses, química cerebral ou nutrientes essenciais; ela é fruto de algo. É o produto da injustiça e da impotência. Pode ser anestesiada, suponho, mas depois que o efeito da medicação passa, fica ali, inalterada, como um intruso que invadiu nossa casa e continua nela, manhã após manhã, ao acordarmos. Se pudesse escolher, eu preferiria estar deprimido. Da depressão já voltei.”

Leu a sinopse, viu a capa do livro, e já sabe o rumo que o livro vai tomar e como vai terminar? Está certo, mas não deixe de ler por causa disso. Na verdade, até facilita, evita o sofrimento já sabendo o que esperar. Mas a beleza do livro não está aí, ele não quer te fazer sofrer e talvez até por isso já deixe um spoiler descarado na capa. Ele quer muito mais, quer te tocar o coração, quer te fazer compreender um pouco mais sobre uma doença mental, quer te mostrar o poder do amor. O amor entre homem e mulher, o amor entre irmãos, o amor entre amigos, o amor entre uma mãe e seu filho. Dançando sobre cacos de vidro mostra que apesar de todas as dificuldades que venhamos a enfrentar na vida, é esse amor que nos fortalece e faz tudo valer a pena.

Narrado em primeira pessoa por Lucy em grande parte do livro, logo de cara nos apaixonamos por essa personagem tão especial. Ela é simples e amorosa, divertida nas horas certas, forte nos momentos difíceis, destemida para seguir seu coração, determinada para ir contra as opiniões alheias. Ela é o guia da sua própria vida. Perdeu o pai muito cedo, mas dele teve uma grande lição que carrega pela vida toda, a nunca temer a morte. Depois perdeu a mãe vítima de câncer de mama. Dela, herdou o gene dessa doença terrível. Mas mesmo com tantos sofrimentos, Lucy não é daquelas personagens que se faz de vítima, que se desmancham em lágrimas a todo instante, que se prendem ao passado.

Lucy encontrou o amor onde nem imaginava, indo contra tudo e todos. Aos 22 anos, ela conheceu Mickey, um empresário que tentava esconder sobre uma fachada de comediante a sua verdadeira faceta. Logo ela descobre que ele sofre de transtorno bipolar. Mas Lucy viu além, viu através da doença, viu o homem bom que ele é. Daí nasce um relacionamento lindo, tão puro que no início pareceu surreal. Não conseguia imaginar aquela situação, até porque Lucy faz tudo parecer tão simples, lida com total controle da situação. Mas aos poucos fui percebendo que o sentimento que existia entre eles é que tornava esse relacionamento tão valioso. E Mickey também é uma personagem cativante. A autora descreve seu transtorno de tal forma e com tal propriedade que compreendemos o que fez Lucy investir nesse amor. Em nenhum momento tive qualquer sentimento de pena por Mickey, até porque ele não precisava da pena de ninguém. Pude apenas vê-lo como uma pessoa como outra qualquer que sofria de uma doença como outra qualquer. E o fato da Ka Hancock ser enfermeira especialista em saúde mental faz com ela descreva tudo com tanta sensibilidade, sentimento e verdade, que mergulhamos de cara nessa história tão tocante. Mostra que não há barreiras que não possam ser transpassadas, nem formas certas ou erradas quando se trata de amor.

Durante boa parte do livro, a autora explora a doença de Mickey, traz feedbacks quanto ao início do relacionamentos deles, os altos e baixos dos 11 anos de casados que já tinham nos dias atuais. No início de cada capítulo, temos um pequeno trecho narrado sobre a perspectiva de Mickey, o que nos faz entrar mais na sua cabeça e compreender melhor seu transtorno. Esses trechos são mais como um diário escrito por Mickey, mas facilita a identificação com o personagem. Depois entra a parte mais dramática, que autora soube dosar para não transformar em um total dramalhão. Ainda assim, a trama ficou pesada, pois foi muita coisa complexa junta e ao mesmo tempo. Tinha hora que eu só queria algo que aliviasse um pouco aquele drama. Mas, para mim, a melhor parte do livro é o final. Penso que só a problemática dos últimos capítulos já dava um livro por si só. Foi a parte que mais me prendeu e a questão mais interessante para ser ponderada e refletida, e que poderia ter sido até mais explorada.

Uma dinâmica familiar complexa, uma decisão difícil, uma lição de vida. Dançando sobre cacos de vidros pode ter altos e baixos, mas é um livro que vale a pena ser lido.

 

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