Escrevendo (Conto) – Acerto de contas

Viajando com palavras… olhar uma imagem, imaginar uma história… e criar um pequeno conto baseado na foto. Estou aprendendo. Um dia eu chego lá!!!

 

Conto baseado nessa foto

Conto baseado nessa foto

ACERTO DE CONTAS

Os tremores das mãos e o gelo no estômago não me deixavam esquecer para onde estava indo. À medida que o carro avançava, tudo que tentei esquecer por tantos anos forçava passagem. Apertei o botão e abri o vidro para deixar o vento bater em meu rosto e afastar aquelas lembranças. Respirei fundo várias vezes e fechei os olhos na tentativa de recuperar o controle, conforme havia aprendido em tantas sessões de terapia. Tarde demais. Fui sugada. Era como um terrível redemoinho do qual sempre tentava escapar e agora estava cobrando seu tempo. Não havia como evitar. Aqueles sentimentos nunca foram embora, estavam adormecidos, esperando o momento certo de virem à tona, de destruírem toda a estabilidade conquistada, de quebrarem a muralha da dor enterrada, de me fazerem sentir novamente como aquela criança amedrontada.

O seu cheiro voltou ao meu nariz, sua voz chegou aos meus ouvidos, seu olhar paralisou meus movimentos. Eu estava de volta àquele quarto, o meu quarto. De volta àquele terror, ao aperto de seus braços, ao toque de suas mãos. “Se contar para alguém, eu mato você”. Eu podia ouvir seu sussurro. Revivia o medo de sua obsessão pelos meus marcantes olhos verdes, do seu desejo pelo meu jeito de menina. Lembrava o nojo da sua respiração quente em meu pescoço e de seu hálito de cachaça em minha boca. Mas eu permiti. Uma vez. Duas. Três. Até que parei de contar.

No início, ele dizia que era para me ensinar, que era bom, que era normal. Eu confiava nele, como não acreditar? A constatação de sua traição deixou-me completamente confusa e desorientada. A confusão foi se transformando em culpa. A culpa, em raiva. A raiva, em frustração. Enquanto as meninas da minha idade brincavam de boneca, eu era feita de mulher. Enquanto cada amanhecer trazia um novo dia, para mim o futuro era desesperança. Enquanto família deveria ser amor, no meu mundo era ódio. Ele roubou minha infância. Destruiu meus sonhos. Usou meu corpo. Ao mesmo tempo que ela não acreditou em mim, ou não quis ver todos os sinais, ou não evitou que sua dependência financeira fosse prioridade. Minha mãe não me protegeu de quem deveria me proteger.

– Chegamos. – abri os olhos ao som daquela voz que tinha o poder de me acalmar, de me trazer toda a força que jamais pensei possuir, de me devolver a esperança outrora perdida. Virei para ele e o admirei. Admirei o homem que ele é, o marido que me aceitava quebrada, o pai que se tornou. Lembrei que essa é a minha família, por quem vivo todos os dias. E era por ela que eu estava ali agora.

– Você tem certeza de que quer fazer isso? Nós podemos ir embora. Você não tem nenhuma obrigação aqui. – ele disse com firmeza.

– Sim, nós precisamos acertar isso. Ele e eu. Uma última vez. Só assim conseguirei acreditar e prosseguir.

Enxuguei as lágrimas, respirei profundamente mais uma vez e desci do carro. Precisava ver com meus próprios olhos a realização dessa fantasia de infância. Precisava ver seu corpo sendo queimado… como sempre imaginei que meu pai queimaria no inferno.

 

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