Escrevendo (Conto) – Natasha

Pessoal, enquanto preparo os posts da nossa última viagem e as resenhas dos livros lidos recentemente, vamos brincar de viajar na batatinha?? Aproveitando o que já tenho pronto aqui só para movimentar um pouquinho o blog que anda tão abandonado. Mas fugindo do estilo de crônica e entrando mais na ficção. Sabe quando você escuta uma música ou vê uma foto e fica imaginando que história existiria por trás daquela letra ou daquela imagem? Alguém já fez isso? Só eu? Ok! rsrs Mas enfim, se você deixar a imaginação fluir sobre o papel, pode ter uma historinha legal, tipo um Conto. Numa dessas divagações, ouvindo a música Natasha, do Capital Inicial, saiu o conto abaixo.

Natasha - Capital Inicial


Natasha – Capital Inicial

Natasha

Era para ser mais um dia normal de trabalho. Depois de 24 horas de um plantão exaustivo, não via a hora de voltar para minha casa, para minha família, para o abraço apertado das minhas filhas. Havia perdido a apresentação de dança delas na semana passada e prometi que chegaria cedo para pegá-las ainda acordadas. Nem lembrava a última vez que havíamos passado algum tempo juntas. Antes, sempre brincávamos de boneca, mas Joana diz que já passou dessa idade. Quando foi que cresceram tanto? Andava trabalhando demais que não sobrava muito tempo livre. Mas naquele dia, tudo mudou…

A porta escancarada pela maca trazida na correria. Uma jovem se contorcia de dores, gritava e se debatia. Poderia ser mais um caso de gestante usuária de drogas, mas quando bati os olhos nela… o meu chão sumiu. Era ela. Era a Ana. Estava diferente. Os belos e sedosos cabelos negros estavam sujos e verdes, emaranhados e bagunçados. Os doces olhos azuis estavam mergulhados numa piscina vermelha, perdidos e aéreos. O corpo, antes já magro e esbelto, agora, osso e pele. Mas era ela, e a tatuagem no pescoço, que papai sempre odiou, não deixava dúvida.

Memórias voavam em minha mente como um filme, reavivando a dor e a saudade. Tantos anos se passaram desde que, numa manhã qualquer, ela fugiu de casa com apenas 17 anos. Era tão jovem e bela. Estudava nos melhores colégios, tinha as mais caras roupas de marca, saía com os maiores amigos de farra. Tudo que o dinheiro pudesse comprar lhe era oferecido. Mas ela só se envolvia com as pessoas erradas e fazia o que podia para chamar a atenção daqueles só queria amor. Num dia errado, ela resolveu sair de casa, deixando para trás sua família, seu namorado, seu passado.

Pouco soube à respeito de Ana durante esses anos, apenas que havia mergulhado num mundo sombrio, decidido viver a vida sem pensar, sem compromisso, sem responsabilidade. Só pensava em festa, a toda hora, em cada lugar. Na noite da cidade grande, ela se perdia entre a multidão, se permitindo ser apenas mais uma entre as garrafas e a fumaça. O dinheiro, que nunca havia sido problema, agora nem era a solução. Cada centavo ganho nas ruas sobre o salto alto e com a saia micro era transformado em comprimido, pó ou álcool, na tentativa de proporcionar a viagem para onde toda sua dor era esquecida. Eu queria ajudar, mas é difícil quando não se quer ser ajudada. E assim, nunca mais consegui encontrá-la.

Um grito tirou-me do estupor do susto e trouxe-me de volta à realidade. Várias pessoas estavam à sua volta, puncionando, oxigenando. Foi quando vi a enorme quantidade de sangue sobre os lençóis. Olhei mais atentamente para sua barriga, mas era plana, até um tanto escavada. Estaria gestante? Mas fora trazida para o Centro Obstétrico, então.. Ah, não Ana! O que você fez? Devagar, fui aproximando-me para lhe falar. Aquela imagem toda parecia surreal, minha vista estava embaçada. Alheia ao que acontecia à minha volta, concentrei-me nela, na pequena Ana.

Ela cruzou seu olhar com o meu e percebi que também me reconheceu. Seus olhos ficaram marejados, sua voz rouca chamou meu nome e, quando cheguei mais perto, a ouvi num sussurro: “Até parece que o mundo vai acabar. É só um bebê e eu nem vou ter.” Grávida ela estava. Sozinha se encontrava. Quem era o pai nem desconfiava.

Poderia ter sido apenas mais um caso, apenas mais uma estatística, apenas mais uma jovem que colocava em seu ventre líquidos, comprimidos, chumbinho, as mais diversas promessas sem pensar nas consequências. Poderia ter sido apenas mais uma vítima de uma triste realidade, mas era ela, era a Ana, que agora ia dançar apenas nas nuvens.

– O nome dela é Natasha – falou alguém.

– Não! É Ana – eu respondi

– Não é o que diz em seu documento – ele me entregou a identidade que, mesmo antes de olhar, já sabia ser falsa.

– Preciso fazer a declaração de óbito. Qual o nome dela, afinal?

Eu apenas conseguia olhar para aquele corpo magro de pele pálida imóvel sobre a mesa fria cujo futuro havia sido interrompido, onde duas vidas haviam sido perdidas e como o mundo da minha irmã caçula havia acabado. Mas o meu estava apenas começando.

 

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Categorias: Escrevendo | Tags: , | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Escrevendo (Conto) – Natasha

  1. Gaby

    Adorei cunha!!!!

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