Escrevendo – O que marca a vida?

Imagens via http://semeioss.blogspot.com.br/ e http://lounge.obviousmag.org/transpotting/2013/07/o-que-voce-quer-construir.html

Imagens via semeioss.blogspot.com.br e lounge.obviousmag.org

(escrito em Fevereiro de 2013)

Uma jovem atriz ganha o Oscar e quando vai receber o prêmio tropeça em seu belo vestido ao subir a escada. Os flashes disparam por todos os lados para registrar seu momento de constrangimento, e não seu instante de glória. Os aplausos que ecoam pelo teatro são para reduzir o mal estar da vergonha e não para enaltecer sua conquista. O seu discurso questiona se a estão aplaudindo de pé apenas por ter “levado um tombo” e não para exaltar seu talento. Os repórteres durante a entrevista perguntam o que ela sentiu quando caiu e não a sua emoção ao ter seu trabalho reconhecido. As fotos que ganham destaque na mídia são as dela ajoelhada pela queda e não pela subida de um patamar ao segurar sua estatueta. Nos jornais, nas revistas, na televisão, nas redes sociais, a informação que gera notícia é a atriz que caiu ao receber o Oscar e não a talentosa atriz que aos 22 anos ganhou o prêmio máximo do cinema americano. E são os interesses das pessoas que alimentam as notícias veiculadas. Isso me faz ver o que merece destaque hoje em dia aos olhos das pessoas. O que marca a vida?

Você passa anos construindo o seu castelo, aquele que, com todo esforço e suor, dispõe tijolo por tijolo com as próprias mãos, alinhados da melhor forma possível. Tendo que controlar seu perfeccionismo, mas querendo que ele seja perfeito aos seus olhos, digno de todo seu tempo doado com a mais pura dedicação. O belo e grande castelo que ganha forma reflete o tamanho e a beleza do seu sonho, a infinitude do seu desejo de fazer algo à altura de todo seu talento. O castelo nunca fica do jeito que quer, mas você não cansa, não desiste, se esforça, ajeita, muda, aperfeiçoa. Ele nunca será o ideal, mas você está feliz apenas por estar na constante busca por um ideal. De repente, seu castelo começa a chamar a atenção e você pensa, depois de tantos anos, de tantos sacrifícios, que alguém está, enfim, reparando no seu trabalho. Mas o que isso importa? Afinal, não fez o castelo para ninguém, fez para si mesmo, para atingir o seu próprio objetivo, para ser a moradia da sua própria razão de viver. Mas você é humano e o seu ser é sensível ao orgulho e à vaidade. Como é bom saber que mais alguém reconhece tudo que tem feito com suas habilidades. Quem sabe assim poderia deixar algo de bom para outrem? Quem sabe poderia contribuir para ensinar outras pessoas a construírem seus próprios castelos? Quem sabe sua existência na terra tenha um motivo, uma razão? Quem sabe seu talento marque sua vida e sua vida marque a vida de outras pessoas? Afinal, todos apenas buscam um motivo que dê sentido ao curto período que se tem entre as duas escuridões, o antes de nascer e a morte.

Então, quando a esperança começa a tomar conta do seu ser e o seu trabalho é admirado e valorizado pelos que observam seu castelo, aparece um detalhe, algo que fugiu ao seu controle, um defeito ínfimo de um único tijolo dentre centenas de outros que utilizou para erguer a sua suntuosa estrutura. A minuciosidade é o que passa a chamar mais atenção. É o que faz as pessoas fixarem seus olhares e direcionarem seus comentários. Não se foca mais no sucesso alcançado e sim no pequeno erro cometido, consciente ou inconsciente, e que, em nada, compromete a estrutura do seu castelo, não reduz o mérito do seu esforço, não ofusca o reconhecimento do seu talento. Mas, além do orgulho e da vaidade, outros sentimentos habitam os seres, a maldade e a inveja. Muitos queriam ter o seu talento, ser capazes de construir um castelo tão grande e belo quanto o seu, de forma que o que vale é atrair a consideração para o negativo, ofuscar o resplendor alheio como se ele fosse uma ameaça ao seu próprio brilho. Entretanto, tenha consciência de que o castelo que se constrói ao longo do tempo com brio e empenho deve ser constituído de fortes tijolos e não de grãos de areia, portanto ele não rui tão facilmente. É sólido e sustentado por alicerces dignos de sua competência.

Mas o que deveria realmente marcar a vida? As pessoas passam anos dedicando-se arduamente a um trabalho e basta um deslize para desviar a atenção do que é relevante na hora do reconhecimento. Passa-se uma vida tentando construir uma história, buscando escrever o nome na linha do destino, querendo ser conhecido pelas suas ações e propósitos, e basta um erro ínfimo para que tudo seja colocado em escanteio, que cada tijolinho disposto com tantos sacrifícios seja ofuscado e desvalido, abandonado ao esquecimento. A vida é construída à base de todas as nossas atitudes ao longo dela e não pode ser um lapso que vai apagar tudo que foi efetivado até então. Muitos degraus são necessários para chegar ao topo dos sonhos. Os tropeços fazem parte, seja um deslize cometido, seja um desequilíbrio num momento de euforia, e deles devem vir a lição e a força para erguer a cabeça e ter a certeza de que ainda há muito para conquistar. O que se fez até ali vale para dizer a pessoa que se é, e a construção do seu caráter deve ser mais forte do que a maldade de quem quer te derrubar dos degraus da vida. De forma que o que vale é continuar subindo, cada passo por vez, cada tijolo estruturando o castelo do seu ideal, atingindo os objetivos e fazendo merecer os talentos que foram concedidos. No fim, o que vai importar não é o que outros digam, divulguem ou aplaudam. E sim a sua sensação de dever cumprido. E como o seu castelo marca a sua vida.

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