Ele e eu

 
 

Playlist: Who you are (Jessie J, versão Angie Miller) – PLAY abaixo

 
(Escrito em 15 de março de 2013)
 

Temos uma relação de longos anos. Fomos apresentados quando eu ainda era um bebê. Cheguei a me assustar ao olhá-lo pela primeira vez, mas ele teve uma participação essencial na minha percepção como pessoa, como parte integrante do mundo que me cerca. A partir dele, pude compreender que não era formada por partes fragmentadas, não era apenas uma mãozinha com a qual passava horas brincando, ou um pé que de repente aparecia dentro da minha boca. E sim um corpo integrado e organizado a semelhança daquela que foi a primeira imagem que conheci. Um dia eu sorri para ele e ele igualmente sorriu para mim. E logo eu gargalhei. Treinamos sons, testamos expressões, crescemos juntos. Se eu dizia sim, lá estava ele me apoiando, sinalizando a cabeça em gesto afirmativo. Ele testemunhava quando eu dava asas a minha imaginação, permitindo-me ser desde a princesa mais delicada até a heroína mais guerreira. Com ele, eu nunca estava só. Na adolescência, viramos amigos inseparáveis. Ele estava sempre presente na minha vida, fielmente mantido ao lado da minha cama. Para ele eu sorria, com ele eu conversava, através dele eu me discernia. Eu achava que ele nunca me julgaria e me compreenderia mais do que qualquer outro. Assim, sempre a ele recorria quando queria uma opinião sincera e honesta, e foi quando começamos a perceber alguma rachadura na nossa sólida conexão. Aos poucos, nossos momentos juntos foram mudando e nossos encontros não foram mais sempre felizes. Entrávamos em divergências, pouco concordávamos e raramente partilhávamos a mesma opinião. Pelo contrário, na maioria das vezes que cruzávamos nossos caminhos, trocávamos críticas e as faíscas cintilavam aos nossos olhos. Quem mudou, ele ou eu? Nossa relação estava saturada e desgastada pela impiedosa ação do tempo. Quantas vezes jurei que nunca mais queria encontrá-lo? Gritei que ele não deveria existir. Quis quebrá-lo em mil pedacinhos e o azar com isso. Prometi que iria bani-lo da minha vida. Mas como? Ele está por todos os lados, em todos os lugares, perseguindo e espreitando. Por mais que o exclua da minha casa, do meu quarto e não mais o carregue a tira colo, ele encontra-me na rua, no restaurante, no shopping, na vida. Quando menos espero e, principalmente, quando menos estou preparada para enfrentá-lo, lá está ele, implacável, incomplacente, inflexível. Doa o que doer, será sincero e verdadeiro. Por que não me enganar ou me permitir ser enganada esporadicamente? Por que não me deixa mais com ele imaginar ser o que não sou? Mas não, quando o olho, sei a realidade. Sei o que vejo. Sei que é aquilo que os outros estão vendo. Ou, pelo menos, sei que é como imagino estar sendo vista. Mesmo que seja o que, muitas vezes, eu preferiria não enxergar. De frente a ele, não sei bem quando sou eu que o olho ou quando é ele que me observa. Não sei quando eu termino e ele começa. Somos dois, somos um. Somos complementares e somos antagonistas. Ele é a extensão de mim, um eu analista e censor. Ele é o meu oposto, julga o outro baseado no exterior. Ele me duplicou e ao mesmo tempo me separou, ao incitar a rivalidade, entre nós, comigo mesma. De forma que atualmente nos odiamos. E nos amamos. O procuro sempre e quando o acho preferia nunca o ter encontrado. Não me diz o que eu gostaria de ouvir. Não me mostra o que gostaria de ver. Mas é a minha imagem, aquilo que sou, o resultado das minhas escolhas e decisões, a resposta natural do passar dos anos. Apesar de não gostar do que ele me apresenta, pouco faço para mudar o que está ao meu alcance. Não assumo a responsabilidade e o culpo pelo o que me incomoda, por apontar descaradamente os defeitos e não exaltar as qualidades. E me pergunto se algum dia voltaremos a ter um encontro mais amigável? Se algum dia estaremos de acordo novamente? Se em algum momento voltará a haver concordância entre o refletido e o percebido? Falaremos a mesma língua? Pouco provável. Ele não é meu amigo. Não mais. Ele não usa diplomacia. Ele não se importa se vai magoar, ou ferir, ou trazer lágrimas aos meus olhos. Eu sou dependente dele, mas ele é dono do seu próprio objeto de identificação. Ele é frio. Ele é imóvel. Ele é um ser inanimado, um ser sem coração. Ele nada diz. Ele nada mostra. Ele apenas reflete. Sou eu que olho e interpreto. É o meu exterior refletindo o meu interior. É como a minha mente me percebe e me aceita. É como eu me sinto frente ao que vejo que produz os sentimentos de não aceitação. É o objeto de identificação transformado em objeto de agressão. Mas eu juro que, às vezes, ele parece falar comigo, tentando mostrar que não cabe a ele resgatar parte da nossa antiga relação, e sim a minha força de vontade, iniciativa, determinação, ou aceitação, que produzirão as mudanças necessárias à nossa reconciliação. Ele busca restabelecer uma cordialidade que seja, quer chegar a um meio termo. Nem tanto narciso, nem tanto rainha má da Branca de Neve. Tenta me mostrar que não é insensível, nem superficial. Lembra que é capaz de captar meu interior, desde que eu seja capaz de me conectar a ele. Recorda o mito dos vampiros, por ele não replicados por não possuírem alma. Logo, de alguma forma, ele pode me perceber também por dentro. E ele quer me fazer compreender que sou eu que preciso me enxergar além de uma imagem refletida. Ele quer me ajudar a mudar aquilo que não gosto e a aceitar aquilo que não posso mudar. Porque a verdade é que ele sente minha falta, da menina que o olhava feliz consigo mesma e com um sorriso estampado no rosto. Ele quer voltar a testemunhar minha autoestima. Ele tem saudade de quando o procurava radiante para mostrar uma roupa nova ou para que ajudasse com a maquiagem perfeita. Ele quer de volta a sua amiga que se amava e se aceitava. Ele quer me lembrar quem sou. Mas eu o evito, não quero ouvi-lo, não quero vê-lo; e, ao mesmo tempo, sem ele não consigo viver. Mesmo o rejeitando, o procuro constantemente. Ele e eu. Amo e odeio. Sentimentos reflexos. Espelho, espelho meu, há alguém mais incoerente do que eu?

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