Resenha – O LADO BOM DA VIDA (Matthew Quick)

Resenha O Lado Bom da Vida Matthew Quick

O lado bom da vida

Título nacional: O lado bom da vida

Título original: The silver linings playbook

Autor: Matthew Quick

Editora: Intrínseca

ISBN: 9788580572773

Categoria: Literatura Estrangeira/Romance

Ano de lançamento: 2013

Páginas: 256

Sinopse: Pat Peoples, um ex-professor na casa dos 30 anos, acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Convencido de que passou apenas alguns meses naquele “lugar ruim”, Pat não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, quis que ficassem um “tempo separados”. Tentando recompor o quebra-cabeça de sua memória, agora repleta de lapsos, ele ainda precisa enfrentar uma realidade que não parece muito promissora. Com o pai se recusando a falar com ele, a esposa negando-se a aceitar revê-lo e os amigos evitando comentar o que aconteceu antes de sua internação, Pat, agora viciado em exercícios físicos, está determinado a reorganizar as coisas e reconquistar sua mulher, porque acredita em finais felizes e no lado bom da vida. Fonte: Intrínseca

“Não quero ficar no lugar ruim, em que ninguém acredita no lado bom das coisas, no amor ou em finais felizes, e onde todo mundo me diz que Nikki não vai gostar de meu novo corpo, nem vai querer me ver quando acabar o tempo separados.”

Para ser bem sincera, quando comecei esta resenha, não estava com uma opinião formada sobre o livro. À medida que fui escrevendo, fui pensando e, ao final, consegui chegar a uma conclusão. Não vi o filme ainda e, portanto, não sei como está a adaptação, de forma que estarei me referindo apenas ao livro.

Comecei O lado bom da vida esperando uma coisa e encontrei outra. Ele não é um romance basicamente. Muito pelo contrário, há pouco romance na história, a qual é muito mais profunda do que eu podia imaginar. Os personagens são complexos e foram muito bem trabalhados pelo autor. Todos! Todos têm uma particularidade, algo marcante, cada um com seus problemas, com suas personalidades, com seus próprios transtornos. E, ao perceber isso, o grande questionamento que me veio à mente foi: o que seria a loucura afinal?

Pat Peoples acaba de sair de uma instituição psiquiátrica, mas ele não lembra quanto tempo se passou e o que o levou para lá. Isso foi um recurso interessante usado pelo autor, pois entramos na trama às cegas, assim como o protagonista. Sabemos pouco e vamos descobrindo tudo junto com Pat à medida que ele vai remontando seu passado e buscando seu futuro. Assim, a história parece meio confusa. Em certos momentos, isso prendia minha leitura, em outros, me entediava. Tudo o que eu sentia era que estava de volta aos meus estágios no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), pois ao escutar o personagem (sim, escutar, mas não precisam me internar, ok?), era como se ouvisse os próprios usuários do CAPS. A princípio, aquilo foi muito estranho e desmereci a escrita do autor, achando repetitiva, desconexa, desorientada. Mas, depois, fui percebendo quão genial foi Matthew Quick. Sua narração foi em primeira pessoa, logo, víamos o mundo pelos olhos de Pat, estávamos em sua cabeça, ouvíamos seus pensamentos, mergulhávamos na sua mente confusa, sofríamos suas dores e vivenciávamos seu transtorno mental. Você já pensou como um homem que está doente mentalmente vê o mundo? É isso que o autor nos traz. Por isso, toda a confusão que eu parecia estar lendo e como eu estava me sentindo era, na verdade, o personagem, e o autor estava me fazendo entendê-lo e conectá-lo. Perfeito! Bom, não sou especialista na área de saúde mental, claro, mas como leiga, achei perfeito.

Por boa parte do livro, fiquei curiosa em saber a idade de Pat. Tudo que sabia era que ele já havia sido casado e, portanto, não era uma criança. Por que a minha curiosidade? Porque, na escrita, ele parece muito infantil, com um coração puro e inocente. O jeito que fala, que se refere aos pais, a linguagem que usa, era como se estivesse, realmente, vivendo uma segunda infância. Ele vive preso no seu mundo de fantasia, querendo que sua vida seja um filme e que tenha um final feliz, fissurado na sua obsessão pela mulher, usando os exercícios físicos como válvula de escape. Um homem feito, que tinha uma vida como conhecemos por normal, e, de repente, se vê de volta à casa dos pais, tentando reconstruir não apenas sua própria vida, mas, principalmente, sua saúde mental. Lembrando que, durante a trama, Pat solta muitos spoilers importantes de vários livros* descaradamente, mas não dá pra ficar chateada com ele e chega a ser um tanto hilário sua relação com a leitura e a sua forma de ver o lado bom da vida.

Achei lindo o amor incondicional da mãe por esse filho. Ela faz de tudo para vê-lo bem, para ajudá-lo nesse momento difícil. Fiquei muito admirada pela força e garra da Jeanie Peoples, uma mulher batalhadora que ama sua família e aguenta as “loucuras” do marido. Como eu disse, não achei Pat o único com transtornos na trama. Não dizem que de louco todos temos um pouco? Pois é. Patrick People, o pai, é outro que precisa de tratamento. Seu humor é baseado por seu time de futebol americano, outro tipo de obsessão doentia, e ele quase não fala com o filho ou interage com a família. Jake, o irmão, luta para restabelecer a conexão com Pat. Temos ainda o psiquiatra Cliff e o Ronnie, melhor amigo de Pat. E por fim, mas não menos importante, Tiffany, com seu jeito esquisito e envolvente. Ela perdeu o marido e, desde então, também passa por problemas psiquiátricos. Toda essa dinâmica entre os personagens é muito interessante e nos faz querer também ver o lado bom da nossa vida.

Só não gostei mesmo foi da constante alusão ao futebol americano, provavelmente porque não entendia nada. A relação da família toda com o esporte é intensa, o que torna repetitiva a narração dos momentos de jogos. Eu já sabia decorado o grito de guerra dos Eagles. Entretanto, de certa forma, é esse esporte que conecta Pat de volta à sua família, aos amigos, ao irmão. Ou seja, o futebol americano acaba tendo uma função muito importante na melhora de Pat e na sua reintegração à sociedade. O restante do que ele precisa vem de Tiffany, de uma forma estranha, atrapalhada, um tanto desequilibrada, mas única.

Bom, cheguei à conclusão de que, realmente, O lado bom da vida merece ser lido por todos. Mesmo que a história não prenda totalmente, é possível tirar grandes ensinamentos, inspirando a superação pessoal, mostrando que ninguém está livre da doença mental e que a linha entre a normalidade e a loucura é muito tênue, de forma que cada um reflita sobre suas próprias atitudes para consigo mesmo e para com as pessoas que ama, e repense suas próprias “loucuras”.

“Se as nuvens estão bloqueando o sol, sempre tento ver aquela luz por trás delas, o lado bom das coisas, e me lembro de continuar tentando, porque eu sei que, embora as coisas possam parecer sombrias agora, minha esposa logo voltará para mim.”

“ – Vocês me dão licença? – pergunto a minha mãe, porque minha cicatriz está coçando, e tenho a sensação de que vou explodir se não começar a bater o punho contra a testa.”

“… mas eu só fecho os olhos, murmuro uma única nota e conto até dez em silêncio toda vez que ele diz o nome do Sr. G.”

* Livros que contêm spoilers em O lado bom da vida:

  • As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain
  • A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne
  • A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath
  • O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway
  • O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger
  • O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald
 
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