O PA

O PA
 
(Escrito em 1 de setembro de 2012)
 

Dirigir nesta cidade está cada vez mais uma aventura. Aventura perigosa, diga-se de passagem. Temos que lidar com os carros que cruzam as ruas movimentadas sem semáforos, deixando sempre a impressão de que esperam para atravessar na hora que o outro carro está o mais próximo possível para dar mais emoção. Exatamente o que não gosto de sentir quando sou o carro que vem no outro sentido. Há também as motos, que resolvem passar pela esquerda, pela direita, por cima, por baixo… O que importa é ganhar tempo, chegar rápido. Só não sei onde leva essa pressa toda. Ou melhor, até sei, mas esse lugar não quero conhecer tão cedo. E não nos esqueçamos das bicicletas, que quanto aos direitos são automóveis, mas quanto aos deveres… não respeitam nenhuma lei de trânsito. Sem contar que, para “dirigir” a bike, não é preciso carteira de motorista! Só que aqui em Macapá tem ainda mais uma divertida aventura nas ruas da cidade. Ruas? Nem sei bem como nomear o que temos aqui. São grandes aglomerados de buracos por todos os lados. Buracos? Crateras seria uma denominação mais adequada. E a grande brincadeira é desviar dos buracos maiores, Ops, desculpem, das crateras, para deixar seu pobre carro cair nos buracos menores. Temos piedade dos nossos carros e então fazemos todo sacrifício de viver em zigue-zague pelas… “Ruas”? (Qual foi mesmo o nome que demos? Ah, lembrei! Foi impossível achar uma palavra correspondente). Só que ao brincar entre as crateras, não podemos esquecer que tem um carro a sua frente para cruzar a sua … (tá! vamos chamar de “rua” mesmo) que está numa outra brincadeira particular de muita emoção. Ou os motoqueiros, que têm pressa de chegar naquele lugar que você, com todo cuidado, insiste em demorar muitos anos para conhecer. E não esqueça que na hora de desviar do buraco, o maior, a cratera, tem aquela bike que passa pelo cantinho, na contra mão, no meio da “rua“, entre os carros. Junto de toda essa realidade, soma-se a falta de sinalização de trânsito (que seria responsabilidade de quem mesmo?) Que tal? E de quem é a “culpa” na hora de um acidente?

Foi nessa realidade louca que bati meu carro ontem. Minha primeira colisão de veículos em 13 anos de carteira de motorista. Uma pessoa que já dirigiu tanto em cidades consideradas de trânsito caótico como Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, ou mesmo Brasília e Porto Alegre, resolve sofrer seu primeiro acidente de trânsito em Macapá. Pois é! A meu favor, digo que faltava uma coisinha, algo simples, sem importância, na “rua”. Uma placa de PARE num cruzamento entre ruas movimentadas sem semáforo. Desta vez, eu fui o carro da emoção, mas errei feio o tempo, o outro carro estava perto demais. Não deu emoção, deu um baita susto. Em minha defesa, a “rua”, que era preferencial durante todo percurso, deixou de ser de repente e esqueceram-se de colocar algo básico como uma sinalização, um simples PARE.

Entretanto, não posso ser injusta. Devo dizer que havia algo na esquina. De relance, meus olhos doutrinados por anos de direção se voltaram para o cantinho à minha direita. Um ato inconsciente e automático, o qual, na verdade, só fui lembrar horas depois. Buscando em minha memória, visualizei a sinalização. Aquela imagem. Aquele PA. Aquela pequena placa retangular de madeira com duas letras de forma na cor branca. No primeiro momento, aquilo não significou nada. Depois, fui compreendendo que, provavelmente, havia sido feita por alguma alma caridosa que resolveu evitar mais acidentes perto de sua casa ou de seu trabalho. Em algum tempo remoto, o qual é difícil precisar, o PA deve ter sido acompanhado por um RE. Obviamente, que me preocupando com os outros carros, as motos, as bicicletas, os buracos, eu deveria, em uma fração de segundo, ter imaginado que aquilo era um PA de um PARE improvisado.

O erro foi meu! Ou melhor, a culpada fui eu. Assim fui denominada na delegacia. SIM! Teve delegacia e tudo, afinal uma pessoa do outro carro se machucou. E foi assim que uma funcionária me chamou no corredor da delegacia: “quem é a culpada pelo acidente?”. Então eu havia sido julgada e não sabia? A escolha das palavras é algo imprescindível. E a única prova ali era a ausência de uma simples placa de trânsito num cruzamento. E eu tenho a prova, uma foto da falta da sinalização. Para minha surpresa, quando meu marido me contou da tal foto, lá estava a imagem do PA, exatamente do jeito que eu imaginava. Não era algo que eu havia criado num momento de estresse emocional. Ele existia! E esse PA não sai da minha cabeça. Por quê? Por que mesmo diante do susto, da emoção, das dores musculares, do choque, do trauma, o que mais me lembro disto tudo é uma sílaba?

Infelizmente, o PA não evitou que sempre que feche meus olhos veja aquele objeto não identificado azul vindo em minha direção. Parecia um filme em câmera lenta. O impacto, o barulho, a falta de controle do carro, a falta de compreensão do que estava acontecendo. As pessoas correndo, se aglomerando. Rostos, faces, expressões. Sons e frases perdidas. Flashes! Tudo se resume a imagens desconexas. Mas a imagem da placa, com aquelas duas letrinhas, teima em se sobressair na minha memória.

Só que agora eu sei o porquê. Não! Eu não era CULPADA. Sim, eu era a responsável pelo acidente. Porém, não havia a placa que deveria estar naquele local, aquela que exerce uma resposta inconsciente do meu cérebro em pisar no freio e … parar. A culpa, muito mais aquela que ocupa meu coração do que aquela que fui condenada, deve ser dissipada aos poucos. Assim como a curiosidade de saber quem colocou aquele PA. Essas letrinhas foram a maior lição que tirei de toda essa experiência desagradável. Saber que ainda existem pessoas como a que fez essa placa. Algo tão simples, tão singelo, tão humilde. A curiosidade que atiça meu cérebro agora é o que faz com que o PA se recuse a deixar minha mente. Quem foi a bendita pessoa que perdeu seu precioso tempo para fazer algo pelos outros, por pessoas que ela nem conhece? Imagino que antes de cair a outra parte da sua plaquinha, esse ato de solidariedade deve ter realmente evitado alguns acidentes. Atualmente, vivemos imersos nos nossos próprios mundinhos, correndo de um lado para outro, preocupados com nossos próprios problemas, olhando apenas para nosso próprio umbigo. Não nos importamos mais com o próximo. Muitas vezes, não podemos perder um minuto do nosso dia para dar atenção a nossos filhos, nossos maridos, nossos pais, nossos amigos, nossos vizinhos… Desconhecidos então, nem pensar! Procuramos sempre alguém para culpar, para nos livrar das responsabilidades. Culpar a prefeitura pela ausência da sinalização de trânsito foi a primeira coisa que fiz. Era mais fácil. Precisava me eximir, me proteger. Mas aquele simples PA fez com que refletisse. Quantas vezes paramos de esperar que o governo faça algo e colocamos a mão na massa para fazermos nós mesmos? Quantas vezes nos eximimos das responsabilidades e culpamos o outro por ser mais fácil? Quantas vezes nos preocupamos com a vida do próximo? Quantas vezes paramos de olhar para si e enxergamos o que nos cerca? Ainda há pessoas assim no mundo. E fico feliz por isso. Que ele tenha feito por outros o que teve a pretensão de fazer por mim. A esta boa alma, a este cidadão desconhecido, por sua boa intenção, dedico meu reconhecimento.

Anúncios
Categorias: Escrevendo | Tags: , , , , | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: