O direito de sentir tristeza

foto(4)(Escrito em 25 de fevereiro de 2013)
 

“Sorria sempre! Para não dar aos que te odeiam o prazer de te ver triste. E dar aos que te amam a impressão de que és feliz”. Li esse pensamento a primeira vez quando tinha 14 anos e nunca mais esqueci. Por muito tempo, o achei o máximo, um lema de vida. Era perfeito, fazia todo sentido. Para que deixar as pessoas saberem que eu estava triste? Para que deixar que me vissem chorando? Se fossem os que me amavam, ficariam preocupados e tristes junto comigo. Se fossem os que não gostavam de mim, ficariam satisfeitos ao ver que minha vida não era um mar de rosas. Então, eu deveria esconder meus reais sentimentos, mostrar felicidade por onde passava, exibir um sorriso no rosto 24h por dia. Só havia um problema. Meus olhos. Nunca consegui disfarçá-los. Já dizem por aí que os olhos são o espelho da alma. Quem te conhece de verdade não se engana quando capta teu olhar. Mas e daí? Melhor tentar esconder seus momentos de tristeza do maior número de pessoas possível, certo?

Por algum tempo, eu tentei, mas era péssima atriz. Não conseguia sorrir quando esse sorriso não estava refletido nos meus olhos. Não conseguia esbanjar felicidade quando meu olhar revelava tristeza. Não conseguia trazer palavras positivas aos meus lábios quando o que eu queria era deixar extravasar o que me entristecia. Não conseguia ser o que não era ou fingir sentir o que não sentia naquele momento. E para que tanto esforço? Por que me preocupar tanto com os outros em vez de me importar comigo mesma? Afinal, as pessoas que me amam estarão ao meu lado não importa como eu esteja. Os que me odeiam… Por que estou sequer pensando neles?

Acontece que esse ditado popular, cujo autor desconheço, reflete o que a sociedade nos exige. Temos que parecer sempre fortes. Revelarmos nossos sentimentos é nos expor. Chorarmos é sinal de fraqueza. Permitirmos que os outros saibam que sofremos é nos deixar vulneráveis. Determinou-se, sabe-se lá quem, que todos temos que ser felizes. O tempo todo. Em todo lugar. Que basta estarmos vivos para que a felicidade entre pela janela do nosso quarto, ilumine o ambiente ao nosso redor, aqueça nossa alma e afaste tudo de ruim. E, claro, a tristeza é ruim. É praticamente uma praga que deve ser exterminada não importando o nível que habite nossos corações. Se não estamos sorrindo, há algo de errado. Se estamos cabisbaixos, reclamando de alguns aspectos da nossa vida, logo vem alguém dizer “fica triste não” ou aconselhar a procurar ajuda. Um remedinho, quem sabe? “Vai melhorar seu estado de espírito”. Há remédio para tudo, menos para a morte, não é assim?

E na era virtual, a rede social nos pergunta: “o que está sentindo?”. Sério? O Facebook está nos perguntando isso logo hoje? Ah, mas não tem ninguém nos vendo, ninguém olhando nossos olhos inchados, ninguém sabendo o que se passa dentro da nossa alma e do nosso coração. Nossa mente está protegida, assim como nossa integridade. Demonstrar fraqueza? Jamais! Deixa a tristeza escondidinha lá naquele cantinho, finge que ela não existe. Quem sabe, se convencermos os nossos amigos virtuais de que estamos felizes hoje, acabe sendo uma verdade!

No entanto, se decidirmos que hoje não. Hoje queremos deixar sair esse sentimento que nos consome. Queremos mostrar ao mundo nossas dores, nossas dúvidas, nossos medos. Queremos que saibam que somos… normais! Logo vem alguém com aquela frase motivadora na tentativa de nos animar, mostrar que não temos razão para estarmos tristes, lembrar que sempre há alguém em piores condições, como se fosse uma competição de qual dor é maior ou de quem tem mais direito de sofrer, mesmo sem sequer saber ou compreender a razão que nos faz assim. Eles querem nosso bem, são os que nos amam, e apenas falam porque não toleram a nossa tristeza. Ninguém tolera. Não pode, não deve. É ruim. É praga. Todos temos que ser felizes, lembra? É como se fossem excludentes, a alegria e a tristeza. Ou se é feliz ou se é triste. Não existe meio termo. É preto no branco, e de cinza, apenas a nuvem que paira sobre a nossa cabeça naquele instante. E o que é melhor, estar feliz ou estar triste? Na verdade, pouco importa. O que interessa é deixarmos as pessoas viverem o que tiverem que sentir. É pararmos de marginalizar a tristeza, de fingirmos que não a sentimos, de sufocá-la quando queremos gritá-la ao mundo. É não mais disfarçá-la, em prol dos que nos amam ou, muito menos, dos que nos odeiam.

E por que há algo de errado em sentir-se triste algum momento? Não estou falando de ficar deprimido, no sentido patológico. Estou falando de se permitir vivenciar os momentos de introspecção, de reflexão e, porque não, de desânimo. Depressão não é sinônimo de tristeza, é algo mais sério e complexo. É a falta de conhecimento que a generaliza. Muitas vezes, só estamos chateados, com aquela vontade de não fazer nada, de não sair da cama naquele dia, cansados da nossa rotina. Queremos chutar o pau da barraca, xingar o mundo, liberar todos sentimentos negativos que estão reprimidos dentro de nós. É um daqueles dias em que o sol brilhando lá fora não tem o mesmo sinal promissor de vida, e sim de mais um dia qualquer, e apenas isso. Mas depois vem um novo amanhecer que pode anunciar o final de mais um sofrimento. Até que venha o próximo.

Deve ter quem esteja pensando seriamente em me recomendar seu psicólogo. Estou com sérios problemas, certo? Ou estou apenas sendo sincera. Revelando um sentimento que todos já experimentaram um dia que seja. Até os mais alegres já ficaram tristes. Afinal, não existe alguém 100% feliz. Aqueles que vivem por aí gritando felicidade aos sete ventos tentam enganar aos outros, mas enganam, principalmente, a si mesmos. Eles não se permitem viver sua tristeza e, logo, com ela não aprendem. Constroem uma muralha entre seu mundo interno e o externo. Só que essa parede é composta de vidro e é frágil. Guardar todos os sentimentos para si, fingir que eles não existem e não os enfrentar faz com que se acumulem dentro do próprio corpo, sobrecarregando o coração, a alma e a mente. Uma hora aparece uma rachadura no vidro. E quando ele se estraçalha, voam cacos para todos os lados, e eles ferem, não apenas a pessoa, como também quem estiver ao seu lado. Reconstruir essa parede requer esforço, paciência e determinação para colar cada caquinho, lembrando de agora deixar aquele buraquinho, aquela válvula de escape, a sua forma de lidar com seus sentimentos. Só questiono se adiantou sorrir sempre? No fim, feriu os que te amam e não mudou a vida dos que te odeiam.

Sendo assim, penso que não deveríamos considerar a tristeza como uma anomalia a todo momento. Deveríamos ter consciência de que é um sentimento tanto quanto é a alegria. É um estado de sensibilidade, comum e legítimo, como a raiva ou o amor. Deveríamos apenas achar as melhores formas de lidar com ela. Não tolerarmos nossos momentos de tristeza, escondê-la embaixo do tapete, não nos torna diferente de todos os outros mortais do mundo. Somos normais. Não acreditam? Se assim não fosse, a tristeza não seria tão retratada pelos poetas. Já escreveu Fernando Pessoa, em Teus Olhos Entristecem, “Até que neste ocioso/ Sumir da tarde fútil/ Se esfola silencioso/ O teu sorriso inútil”. Ou não seria cantada nas músicas mais belas como na voz de Roberto Carlos: “Eu colho a tristeza em forma de flor/ Na paz da certeza onde canta o amor”. Não estaria nos filmes, nos livros, na vida. Vinícius de Moraes já disse “tristeza não tem fim, felicidade sim”. Somos humanos, temos sentimentos e somos altamente influenciados pelas emoções. Sejam boas, sejam ruins, para sentir, basta existir. E assim é a tristeza, todos a sentem, todos a cantam, todos a escrevem, mas poucos a enfrentam. E mais raro são os que com ela evoluem. Mas o que ela humildemente deseja, além de usufruir do seu direito de existir, é que nós gozemos o direito de senti-la. Portanto, vivamos a nossa tristeza. E sejamos felizes.

(Inspirado no texto “A Tristeza Permitida” de Martha Medeiros)
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8 opiniões sobre “O direito de sentir tristeza

  1. Já li muitos textos e nunca refleti tanto quanto no seu. O estado de tristeza é um momento que nos encontramos em várias ocasiões, devido a períodos que esperavamos ou não, quando pegas de surpreza parece que doi mais… mas que nada, a dor da imensidão do buraco que fica quando as coisas dão errado,nossa! derruba qualquer cristão. Mesmo assim precisamos estar fortes perante a mãe, os filhos, o marido, a sociedade e enfim, é um mundo que carregamos que eu não sei quem nos disse que era para ser feito. Aprendemos uma imagem de felicidade eterna e repassamos para nossas novas geraçoes acreditando ser o certo, e… quem disse que era o certo? O importante é que podemos repensar sempre, analisar, criticar, e procurar viver melhor. Hoje, minha filha, lendo seu texto posso dizer que a cada dia aprendo mais coisas com você e creio ser importante renovar as idéias e encontrar pontos de apoios, saber dosar tristezas e alegrias,e qual é o problema de expressar minhas emoções, afinal elas existem para todos. Parabéns

    • Thyl Guerra

      Como eu coloquei no post, a ideia veio de uma crônica dessa autora que eu adoro, a Martha Medeiros. Suas palavras no texto “A tristeza Permitida” me tocaram de tal forma que resolvi reescrever com minhas palavras essa grande verdade! Obrigada!

  2. Marília Roberta

    Disse tudo, não existe ninguem que nunca teve uma decepção, que não “caiu” alguma vez, Deus mesmo diz vc passara por tribulações…
    amei o que vc escreveu que muitos possam entender isso…
    parabéns bjos!

    • Thyl Guerra

      Às vezes, as pessoas não conseguem entender a diferença entre SER e ESTAR. Eu posso estar triste e não significa que eu seja infeliz. Eu sou feliz por tudo que tenho e sou grata a Deus por isso, mas posso estar triste em alguns momentos e tenho o direito de me sentir assim. Afinal, não estou numa competição de quem é mais feliz, ou quem tem mais direito de ter tristeza por ter mais problemas do que eu. Sempre tem alguém pior do que nós, como sempre tem alguém melhor. E daí? Só nós sabemos o que sentimos e a dor é pessoal. Como diz no livro Entre o agora e o nunca, “dor é dor. Só porque o problema de uma pessoa é menos traumático do que o de outra, não significa que deva doer menos.” Só que nem todo mundo entende isso, né? 😉 Bjinhos

  3. Maria das Graças Jacó Santos

    Concordo, é muito importante entendermos a nossa alma sem precisar justificar,toda hora , o porquê do que estamos sentindo…

  4. Rose M

    Nossa!! Que TUDO, Thylrinha…
    Amei cada frase, muito especialmente estas: “Uma hora aparece uma rachadura no vidro. E quando ele se estraçalha, voam cacos para todos os lados, e eles ferem, não apenas a pessoa, como também quem estiver ao seu lado.” É bem por aí…
    Sempre fui adepta desta frase e tenho praticado a mesma ao longo de todos estes anos. Ela frase nunca mais será a mesma depois do seu post! 😉
    Nunca é tarde que possamos aprender. Eu estou tentando, eu chego lá…
    Um grande beijo e mais uma vez, obrigada, por compartilhar conosco esta maravilha.
    Deus siga lhe abençoando!

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