Resenha – A ESPERANÇA (Suzanne Collins)

Resenha A Esperanca

Trilogia Jogos Vorazes 3

Título: A Esperança

Título Original: Mockingjay

Autor: Suzanne Collins

Editora: Rocco

Lançamento: 2011

Categoria: Literatura Estrangeira

ISBN: 9788579800863

Páginas: 424

Esta resenha pode conter SPOILER dos volumes anteriores (para ler as resenhas, clique: JOGOS VORAZES e EM CHAMAS)

Sinopse: Depois de sobreviver aos jogos vorazes, Katniss Everdeen tentará se encontrar no papel de símbolo de uma revolução, enquanto luta para proteger sua mãe e sua irmã no meio de uma guerra. A Capital está irritada e quer vingança e, por isso, inicia uma represália a toda a população. Ser o símbolo da revolução tem um preço alto para Katniss, que terá que decidir o quanto da sua própria humanidade e sanidade ela poderá arriscar em nome da causa, dos seus amigos e da sua família. É pela voz da protagonista, ainda mais feroz e obstinada, que a autora desafia o leitor a refletir em meio a cenas cruéis de combate. Tudo isso numa narrativa brilhante, com viradas surpreendentes que levam a um desfecho chocante e original. Fonte: Editora Rocco

 
“Mas o pensamento coletivo é geralmente de curta duração. Nós somos volúveis, seres estúpidos com memória fraca e um grande talento para a autodestruição…” (Plutarco Heavensbee)
 

Precisei de uns dias entre acabar de ler esse livro e conseguir escrever qualquer coisa sobre ele porque tinha que assimilar e absorver a quantidade de acontecimentos na história e seus profundos questionamentos. E, para começar, eu cheguei à conclusão de que sua categorização como um livro infanto-juvenil, como está nos sites da Livraria Saraiva, realmente não é adequado. Sim, ele é juvenil, com personagens na fase da adolescência, se enquadrando no gênero Young Adult (adulto jovem), mas sua temática é bastante complexa. Eu o conhecia como um livro adolescente já que sempre o via na sessão de livros juvenis das livrarias, mas acho que ele é mais adulto do que poderia imaginar. E não falo apenas pela violência e pelas cenas sangrentas descritas, mas sim pelo que há por trás de tudo isso, pelo teor de reflexão que ele carrega em suas páginas, pela sátira da autora ao que vivemos nos dias atuais. A trilogia como um todo é muito interessante e seu grau de maturidade e de aprofundamento das questões sociais vão crescendo ao longo dos três livros. De forma que não é apenas mais um livro de entretenimento ao se conseguir captar as entrelinhas e o que a autora quis trazer de reflexões.

Não gostei do título nacional dado ao livro. Penso que seria melhor ter deixado como Mockingjay, sem qualquer tentativa de tradução. E, sinceramente, tudo que menos senti nesse livro foi esperança. Na verdade, quando o terminei, estava completamente sem esperança na raça humana. Mas entendi que o sentido dado foi ao simbolismo da Katniss na revolução como um todo, sendo ela a esperança daquele povo, ou mesmo ao sentimento de desesperança que temos durante a leitura. Entretanto, o que autora quis dizer vai muito além disso. Para mim, o único sentido de esperança está no epílogo, a esperança de que a vida continua, e renasce.

A narrativa da Suzanne Collins é impressionante, sem floreios, sem romantizar. Ela é direta e verdadeira, e muito intensa. Fiquei cativada e devorei o livro em dois dias (ou melhor, 2 madrugadas). Simplesmente não conseguia parar. A leitura do mundo que ela traz a partir da Katniss, com uma narrativa em primeira pessoa, é incrível, fazendo com que tenhamos uma noção de tudo que ocorre a sua volta. Pelos olhos de Katniss, visualizamos nitidamente os ambientes e podemos conhecer os outros personagens. O livro é muito bem escrito, bem elaborado, tem bom ritmo e muito criativo. Traz muitos questionamentos e reflexões. Mantém-se na mesma linha e no mesmo nível dos outros dois livros anteriores (Jogos Vorazes  e Em Chamas), e vem ainda com mais violências e muito, mas muito sangue. A autora não economiza nas descrições e parecia que eu estava mesmo no meio de um campo de batalha em alguns momentos. Era a visão do inferno, da agonia, do desespero, da desesperança. Há muito drama e cenas chocantes, decapitações, explosões de pessoas em pedacinhos, chamas vivas, e mais. Então, para quem não gosta de ler essas coisas, melhor procurar outro livro, ou minar um pouco sua própria imaginação ao visualizar as descrições da autora.

Os personagens são forte, cada vez mais profundos e complexos. Suzanne traz muito teor psicológico na confecção de seus personagens. Afinal, nenhum ser humano que passe por tudo aquilo, por aqueles jogos vorazes, escaparia de ter uma grande bagagem emocional e consequências psicológicas marcantes. Katniss chega a me decepcionar um pouco no início, mas aos poucos percebo que ela estava tão perdida na situação que a colocaram quanto eu estava ao ler. Ela é um fantoche nas mãos de pessoas poderosas, de forma que continua sendo uma peça de um jogo maior. Cada vez mais vamos vendo sua personalidade, sua determinação, seus ideais, mas, ao mesmo tempo, ela tem suas fraquezas e deixa transparecer seus medos e inseguranças por trás de toda aquela força e racionalidade. Ela é apenas humana e foi sujeita em sua vida a muitos sofrimentos, perdas e traumas físicos e psicológicos. À partir de um terço do livro, tudo fica eletrizante e dinâmico. Para quem gosta do Gale, nesse livro ele compensa a ausência nos demais. Está sempre presente, mostra sua personalidade, sua garra e seu ódio pelo sistema de Panem. Mas não consegui gostar dele. Só conseguia pensar em como estava o Peeta. O garoto-do-pão demora um pouquinho a aparecer na narrativa e a autora traz grandes surpresas com ele em todo restante do livro. Mas realmente não gostei do final romântico da história. Parecia que autora já estava num nível dramático tão grande que não havia mais espaço para romance algum, então ela deu uma conclusão simbólica de apenas um parágrafo. Eu estava esperando mais, foi abrupto e podia ter sido um pouco mais desenvolvido.

O enredo dá grandes reviravoltas ao longo das páginas. Nunca se sabe o que esperar, em quem confiar, o que pensar. Isso que torna a leitura intrigante. Se nos livros anteriores houve alguma previsibilidade quanto ao final, nesse é surpreendente, e até chocante. Eu confesso, não gostei muito do final como um todo. Tudo bem, sei que ele não era um conto de fadas, nem um romance água com açúcar, e que era impossível simplesmente todos acabarem bem e felizes para sempre. A ideia nunca foi essa e sim chocar, trazer um pouco da realidade, uma alfinetada na sociedade, de forma que sabia que as coisas no final iam ser bem complicadas. Mesmo assim, ainda fiquei muito chateada com o final de alguns personagens, mas não deixou de ser real, já que sabemos que em uma guerra nunca há vencedores, e sim muitas vítimas. E o que deixou esse livro mais inusitado foi a incerteza do que ia acontecer com cada personagem, pois, nos anteriores, sabíamos que eles estavam numa arena onde a única regra era que apenas um poderia sobreviver. Nesse, a arena é a vida real, e tudo pode acontecer com qualquer um. Qualquer um mesmo! Também achei interessante como, de certa forma, a autora terminou a revolução praticamente voltando a como tudo isso começou, lá no início do primeiro livro durante a colheita dos jogos vorazes quando Katniss se voluntaria para salvar a irmã, mostrando como todos os nossos atos têm consequências desde o primeiro momento em que tomamos determinada escolha. Ficou confuso? Não dá para explicar, tem que ler. 😉

Só que o mais interessante no livro todo é o questionamento dos valores da nossa sociedade. Mesmo sendo uma ficção ambientada num futuro não determinado, podemos transpor muitas coisas para o que vivemos hoje, como governos opressores, política de pão e circo, culto a aparência física, exageros consumistas, esbanjamentos de recursos por minorias, miséria e fome, falta de moral e ética, briga por poder, jogos políticos… enfim, tantas coisas estão presentes nas páginas de A Esperança que é difícil nomear tudo. Mas duas coisas mais me marcaram. Primeiro, os interesses por trás das guerras, como muitas vezes aquele que se diz a oposição, o governo salvador, acaba sendo no fim a mesma coisa, repetindo os mesmos erros. Tudo é em prol do interesse pelo poder de alguém e não pela coletividade. E o novo governo pode ser tão opressor quanto aquele ao qual combate. O que eles viviam no Distrito 13 era tão diferente assim da opressão da Capital? Ou apenas as justificativas por trás das ações que diferiam? A destruição causada pelas batalhas é devastadora, um massacre onde pouco importa a vida de ambos os lados. A presidente Coin era tão diferente do presidente Snow? No fim, o que vale é o poder e o controle, colocando-os à frente da humanidade e pouco importando os meios para alcançá-los. Ganhar o apoio da população vai depender do que os poderosos vão mostrar para ela, o que é exatamente aquilo que querem que seja visto. E é aí que entra a segunda coisa que mais me fez pensar, o poder da mídia. Costuma-se dizer que a mídia é formadora de opinião, mas na verdade ela é indutora de opinião. Ela induz as pessoas a pensarem e a acreditarem naquilo que querem, mostrando o que devem ver e que atende aos interesses daqueles que mantêm o poder, ou buscam o poder. Muitas vezes, o que nos é mostrado na TV é só mais um jogo, um jogo de interesse, e que serve apenas para desviar a atenção do que realmente está por trás daquilo, ou para atingir os objetivos de alguém em particular. No fim, nos transformam todos em peças desses jogos vorazes da vida real.

Tive as mais diversas emoções lendo A Esperança. Chorei, sofri, tive raiva, e apesar de ter terminado a leitura me sentindo deprimida, desiludida e sem esperança, o livro fechou a trilogia perfeitamente e não consegui parar de pensar e refletir por dias. É uma série genial! LEIAM!

 
“Panem et Circenses se traduz para ‘Pão e Circo’. O escritor estava falando que em retorno de abundantes estômagos cheios e entretenimento, suas pessoas têm que desistir de suas responsabilidades políticas e em consequência de seu controle.” (Plutarco Heavensbee)
 
“Eu acho que Peeta estava ciente de algo sobre nós destruirmos uns aos outros e deixarmos alguma espécie digna assumir. Porque há algo significativamente errado com uma criatura que sacrifica a vida de seus filhos para resolver suas diferenças.” (Katniss Everdeen)
 
“Não se preocupe. Eu estarei perfeitamente salva. Eu nem sou mesmo um soldado real. Somente um dos fantoches televisionados de Plutarco.” (Katniss Everdeen)
 
 
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